O verdadeiro Evangelho, que é a novidade que fez com que a maioria dos judeus se escandalizasse no tempo apostólico, ignora completamente as leis mosaicas, substituindo-as por dois princípios tão básicos quanto mais complexos e eficazes que o antigo pacto: Amar a Deus sobre todas as coisas, e ao próximo como a si mesmo. Toda a lei a que servimos hoje se baseia nesses dois preceitos que desencadeiam, não só todo o objetivo de Moisés, mas ainda mais, todo o pensamento de Deus e seus planos para a vida do homem espiritual. A “lei” de Cristo é o tronco que nasce no coração do cristão do qual surgem os ramos prontos para produzirem bons frutos. O tronco é a verticalidade do cristão, a saber, seu relacionamento de amor para com Deus, enquanto que os ramos são a horizontalidade, ou seu amor para com a criação, seus semelhantes.
O amor a Deus, que é o maior mandamento, é o tronco de onde saem os ramos, portanto, sem amar a Deus, é impossível amar ao próximo. Obviamente, pela Graça Comum, sabemos que há quem ame ao semelhante sem amar a Deus, pois, ainda que o impiedoso não tenha amigos, ele tem entes queridos.[1] Mas o verdadeiro amor ao próximo excede a barreira do amor humano, segundo o mandamento do Mestre: Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem,[2] fazendo assim com que o amor ao semelhante seja algo mais amplo e inconcebível ao coração do homem, se tornando loucura para o homem natural e vida e prazer para o homem espiritual.
Amar ao próximo é mais que fazer-lhe o bem o tratando como um simples objeto como se não importasse quem ele é ou o que ele vive, mas ter amor por sua alma e esforçar-se para que ele tenha a maior felicidade que alguém pode experimentar, a saber, a graça salvadora de nosso Senhor Jesus Cristo.
Nossa verticalidade produz naturalmente nossa horizontalidade, sendo o inverso completamente falso. Portanto, quanto mais o tronco cresce e se aproxima de seu alvo de desejo, mais ramos nascem; e o anseio por salvar alguns[3] é o que nos motiva a buscar ainda mais do que temos tido, pois há um momento em que o tronco se enche de ramos de tal forma que a única saída é crescer ainda mais para que tenha ainda mais espaço onde possam nascer-lhe ramos. Sendo, então, o tronco nosso relacionamento com o Pai e os ramos nosso relacionamento com o semelhante, a terra é a Palavra de Deus que nos alimenta, e a raiz, o Espírito Santo que nos permite extrair nossos nutrientes.
Mas em um ponto minha analogia falha, em que árvores da mesma espécie tendem a crescer de forma ordenada, e pouco ultrapassam em altura uma a outra. Enquanto que o espírito que conhece mais plenamente a natureza do Cristo e a mensagem de sua cruz, tende a, em grande parte das vezes, sentir-se solitário na igreja onde congrega, pois que há poucos que vivem seus ideais com tanta intensidade quanto ele e, quando muito, ganha o consentimento dos irmãos, sem ver nenhuma atitude com relação a isso. Um homem só é grande e só se educa para a grandeza de seus semelhantes quando tem a coragem de viver suas idéias e morrer por seus ideais.[4]
A intenção deste artigo é traçar biblicamente um padrão para identificar um cristão, não apenas (e muito pouco aconselhável) para julgarmos outros que professam a fé como nós, visto que tal ferramenta seria deveras nociva nas mãos da maioria das pessoas. O padrão que pretendemos traçar é principalmente e quase que totalmente com o objetivo de buscarmos enxergar em nós mesmos as qualidades que permeiam a vida de um verdadeiro cristão.
Ao tratar no título o termo “natureza do homem”, somos automaticamente direcionados a “homem natural”,[5] sendo “natureza” a nossa carne, nosso Ego; e isso é proposital. Mas ignoremos essa relação e nos atemos à definição mais comum de natureza, como essência, caráter, propriedade, qualidade, definindo assim o nosso espírito, nosso Eu.
Ao ter conhecimento da Verdade, nossa natureza, assim como todas as coisas criadas, geme e suporta angústias aguardando a redenção,[6] aquilo para o que nascemos. E até que nossa verdadeira natureza seja revelada a nós, não temos liberdade de sermos nós mesmos, e somos nada senão governados pelo deus deste século.[7] Só somos livres para sermos nós mesmos quando estamos em conformidade com aquilo que nascemos para ser, do contrário, nos sentimos vazios em comparação com a nossa verdadeira natureza.
[1] Lucas 6:32
[2] Mateus 5:44
[3] 1Coríntios 9:22
[4] Rohden, Huberto; Paulo de Tarso, O Maior Bandeirante do Evangelho, São Paulo: Martin Claret, 2004. 18º Edição; página 118.
[5] 1Coríntios 2:14
[6] Romanos 8:22-23
[7] 2Coríntios 4:4
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Me impressiona o número cada vez maior de instituições religiosas que tentam conquistar adeptos com promessas cada vez mais absurdas, como por exemplo, ausência de sofrimento. Mas até aí, tudo bem. O grande problema é que, engrossando essa fileira religiosa, estão alguns segmentos que se identificam como igreja cristã, ou mais precisamente, evangélica.
Ausência de sofrimento não é pressuposto cristão, e sim, budista. Vamos conferir as duas linhas de pensamento: Para Buda, viver é sofrer, então a única maneira de parar de sofrer é transformar a vida cada vez mais em existência. Nesse sentido, para Buda, o homem passa a ser mais mente que coração, sendo assim, destituído de emoções, insensível e, por conseqüência, livre dos sofrimentos; nos ensinos de Cristo, ao contrário do budismo, nós também somos razão, mas, sobretudo, emoção. Somos sensíveis às dificuldades comuns dos mortais.
O próprio Cristo afirmou que no mundo teríamos aflições. Portanto, não aceitar o sofrimento é irracional, pois seria negar a própria estrutura humana e ignorar a afirmativa de Cristo.
Paulo afirma em sua carta aos filipenses que aprendeu a viver contente em toda e qualquer situação. Com isso, percebemos que os sofrimentos são, muitas vezes, caminhos que nos trazem maturidade. O sofrimento nos traz experiência, nos aproxima de Deus e nos mostra o quanto de Deus somos dependentes. Mas percebemos na carta de Paulo aos romanos que o apóstolo superava os sofrimentos olhando para o futuro, afirmando sua certeza de que os sofrimentos do tempo presente não podem ser comparados com a glória a ser revelada. É bom lembrar que a vida cristã não é sofrimento, mas passa pelo sofrimento, que é facilmente vencido na presença daquele que tem o controle de nossas vidas.
Pelos seus frutos os conhecereis. Colhem-se, porventura, uvas dos espinheiros ou figos dos abrolhos? Não pode a árvore boa produzir frutos maus nem a árvore má produzir frutos bons.
Estreita é a porta e apertado é o caminho que conduz à salvação. Se apenas a porta fosse estreita, eu teria razão suficiente para crer que, de fato, todos aqueles que professam a fé em Cristo, são salvos. Se apenas a porta fosse estreita, eu teria felicidade com o crescente número de Cristãos no Brasil. Se apenas a porta fosse estreita, eu provavelmente não teria a preocupação e o prazer de falar de Cristo, e você não estaria sequer lendo isto.
Mas o caminho também é estreito. Ser cristão exige uma mudança de posicionamento com relação às coisas do mundo. Não se pode agir como o mundo, vestir-se como o mundo, cheirar como o mundo, ser confundido com o mundo e pertencer a Deus.
Numa multidão de novas doutrinas, denominações e seitas, como saber quem realmente pertence a Jesus Cristo e quem foi apenas convencido de tal? Como saber quem foi vítima de algum pregador mal instruído com sua doutrina de “se você convida Jesus a entrar em seu coração, então você é salvo”?
O conhecerá por seus frutos. Não há videiras que produzam espinhos e não há espinheiros que produzam uvas. Toda árvore boa dá bons frutos. Toda árvore má dá frutos maus. Uma vez que sou salvo, se me desvio por um momento do caminho apertado, Deus trata de me colocar novamente no lugar.
Assim como não depende da vontade da videira frutificar ou não, sendo regida pelas estações, não depende de mim dar bons frutos. Sou regido unicamente pela vontade soberana de Deus.
Atualmente, o dinheiro aparenta ser o maior adversário de Deus pelos corações humanos. Se pela graça um homem se liberta do amor por bens e perseguição de riquezas, abre para si mesmo a possibilidade de devoção exclusiva a Deus.
O homem natural nasce com vocação para ser escravo de alguém. A questão não é se ele é escravo ou não, mas sim, de quem ele é escravo. Alguns homens são escravizados por outros homens, outros são escravos de si mesmos, e outros de coisas como dinheiro, segurança e respeito. A lista do que pode escravizar um homem é quase infinita, mas Cristo nos chama para nos desviarmos da escravidão e colocarmos nossos corações inteiramente direcionados sem qualquer restrição.
As Escrituras nos ensinam que é impossível servir a Deus e às riquezas simultaneamente. A aplicação disso alcança a todos os que acreditam, pois não deve haver qualquer competição em seus corações entre Deus e qualquer outra coisa, visto que todas as coisas desse mundo são finitas.
Como poderia Deus, que é infinito, ser vencido por algo finito?
Quem entende o básico de matemática, é capaz de concluir esse cálculo.
A resposta para essa pergunta significa absolutamente nada. Reconhecer que sou um pecador não me promoveu automaticamente à Salvação, mas a mudança de relacionamento com o pecado é que denota que sou, de fato, salvo. Para mudar o relacionamento com Deus, precisei mudar o relacionamento com meu pecado. Isso significa que, o pecado que antes amava, passei a odiar. O Deus que antes odiava, passei a amar.
Deus não me divide com o pecado.
Pela primeira vez, examinei a mim mesmo com um propósito seriamente prático. E ali encontrei o que me assustou: um bestiário de luxúrias, um hospício de ambições, um canteiro de medos, um harém de ódios mimados.
Meu nome era Legião.
